Há uma casa que parece saída de um filme. Adivinha o filme? 

Na Branda de Santo António de Val de Poldros, a mais de mil metros de altitude, três cardenhas do século XII estavam entregues ao silêncio. Hoje voltam a ter luz acesa à noite e uma história de amor por um pedaço de Monção que se recusou a deixar morrer.

Há lugares que resistem por teimosia. A Branda de Santo António de Val de Poldros é um deles: um punhado de casas de pedra e musgo pousadas a mais de mil metros de altitude, na Serra da Peneda, onde o vento chega antes das pessoas e o silêncio é tão grande que se ouve o passar das estações. Foi aqui, entre pedras que já viram séculos de pastores subirem com o gado à procura de erva e água fresca, que nasceu a Cardenha das Formiguinhas — não apenas um alojamento, mas uma promessa cumprida a um lugar que se recusava a desaparecer.

A história começa há cerca de trinta anos, numa caminhada. O atual proprietário chegou a este planalto sem saber o que ia encontrar e ficou rendido a um conjunto de casas de pedra que contavam, sem precisar de palavras, a vida inteira de uma comunidade pastoril: a parte de baixo para os animais, a de cima para os homens que, entre maio e setembro, trocavam o calor do vale pela frescura da montanha. Anos depois, comprou uma das cardenhas. E, com ela, comprou também a responsabilidade de não deixar que a memória daquele lugar se apagasse.

Foi esse sentimento, mais do que qualquer plano de negócio, que levou à parceria com a Azevim Nature, empresa que vive da paixão por devolver vida a casas esquecidas em lugares remotos. Juntos, decidiram que a Cardenha das Formiguinhas merecia continuar a existir, e a ser habitada, mesmo que por hóspedes em vez de pastores.

A obra durou cerca de um ano e meio, e cada gesto foi feito com o cuidado de quem sabe que está a mexer em algo que não lhe pertence apenas a ele. As pedras centenárias, o musgo no telhado, a zona de churrasco onde já se fizeram tantas refeições em família, tudo ficou como sempre esteve. Lá dentro, sim, sanaram-se as feridas do tempo: fecharam-se as fendas por onde entrava o frio, trocaram-se portas para que o vento deixasse de ser um hóspede indesejado. Restaurar sem trair: foi essa a regra silenciosa de todo o processo.

As três cardenhas, pequena, média e grande, nunca tinham falado entre si. Agora, um túnel discreto liga as duas mais pequenas, para que ninguém precise de enfrentar o frio da noite só para chegar à casa de banho. A maior, a poucos passos, guarda no piso de cima a cozinha e, lá em baixo, uma sala onde o sofá-cama, a televisão e a salamandra acesa prometem aquecer não só o corpo, mas também aquelas noites de montanha que convidam a ficar acordado a conversar até tarde.

Recebe até quatro hóspedes, e desde março que há gente a dormir onde antes só dormia o silêncio. As diárias rondam os 100€, mas o que se leva de lá não se mede em euros. Alguns já lhe chamam a «casa Hobbit» portuguesa, pelas portas baixas e pelo ar de conto que a pedra e o musgo emprestam ao lugar, nada tem que ver com Tolken, garantem os responsáveis, e talvez seja ainda mais bonito assim: é uma história genuinamente nossa, escrita por pastores muito antes de qualquer livro.

Hoje, na Branda de Santo António de Val de Poldros, vive apenas uma pessoa todo o ano. Mas o lugar não está sozinho: os caminhantes do Trilho de Santo António de Val de Poldros continuam a subir a serra, e a mesa do Restaurante Val Poldros continua a encher-se de quem procura sabores antigos. A Cardenha das Formiguinhas junta-se agora a esta resistência silenciosa, uma casa que voltou a ter luz acesa à noite, e com ela, voltou também a esperança de que este canto de Monção nunca mais fique completamente sozinho.

Ficha técnica

Nome: Cardenha das Formiguinhas

Localização: Branda de Santo António de Val de Poldro, 4950-707 Monção

Capacidade: 4 hóspedes

Preço médio: entre 80€ e 120€/noite

Contacto: (+351) 251 034 621

Reservas e informações: azevimnature.com

Instagram: @azevimnature

Comparte éste artículo
No hay comentarios